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Via Sacra

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Via Sacra

 

As orações e meditações desta Via Sacra foram escritas pelo Papa Bento XVI, adaptadas pela Rede Século 21 e disponibilizadas para você rezar com fé.



O objetivo desta Via-Sacra é evidenciado já na oração inicial e, depois, na XIV estação. Trata-se da afirmação pronunciada por Jesus no Domingo de Ramos – logo a seguir à sua entrada em Jerusalém – como resposta à súplica de alguns Gregos que queriam vê-Lo: “Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto” (Jo 12, 24).

 

Deste modo, o Senhor interpreta todo o seu caminho terreno como o percurso do grão de trigo, que, só através da morte, chega a produzir fruto. Interpreta a sua vida terrena, a sua morte e a sua ressurreição de modo a desembocar na Santíssima Eucaristia, na qual está compendiado todo o seu mistério.

 

Uma vez que Ele viveu a sua morte como uma oferta de Si mesmo, como um ato de amor, o seu corpo foi transformado na nova vida da ressurreição. Por isso, Ele, o Verbo encarnado, tornou-Se agora o nosso alimento, que conduz à verdadeira vida, à vida eterna. O Verbo eterno – a força criadora da vida – desceu do Céu, tornando-Se assim o verdadeiro maná, o pão que o homem comunga na fé e no sacramento.

 

Deste modo, a Via-Sacra torna-se num caminho que introduz dentro do mistério eucarístico: a piedade popular e a piedade sacramental da Igreja interligam-se e fundem-se.

 

A devoção da Via-Sacra pode ser vista como um caminho que leva à comunhão profunda, espiritual com Jesus, sem a qual ficaria vazia a comunhão sacramental. A Via-Sacra apresenta-se como um caminho «mistagógico».

 

Contraposta a esta visão, aparece a compreensão puramente sentimental da Via-Sacra, para cujo perigo, na VIII estação, o Senhor alerta as mulheres de Jerusalém que choram por Ele. O mero sentimento não basta; a Via-Sacra deveria ser uma escola de fé, daquela fé que, por sua natureza, “atua pela caridade” (Gal 5, 6). Mas isto não quer dizer que se deva excluir o sentimento.

 

Segundo os Padres da Igreja, o primeiro defeito dos pagãos é precisamente a sua falta de coração; por isso, os Padres repropõem a visão de Ezequiel que comunica ao povo de Israel a promessa feita por Deus de tirar do peito deles o coração de pedra e dar-lhes um coração de carne (cf. Ez 11, 19).

 

A Via-Sacra mostra-nos um Deus que partilha pessoalmente os sofrimentos dos homens, cujo amor não se mantém impassível nem distante, mas desce ao nosso meio até à morte na cruz (cf. Fil 2, 8).

 

Este Deus que partilha os nossos sofrimentos, o Deus que Se fez homem para levar a nossa cruz, quer transformar o nosso coração de pedra chamando-nos a partilhar os sofrimentos alheios, quer dar-nos um «coração de carne» que não fique impassível diante dos sofrimentos alheios, mas se deixe comover e nos leve ao amor que cura e ajuda. Isto reconduz-nos às palavras de Jesus sobre o grão de trigo que Ele próprio transforma em fórmula basilar da existência cristiana: “Quem ama a sua vida perdê-la-á, e quem neste mundo aborrece a sua vida conservá-la-á para a vida eterna” (Jo 12, 15; cf. Mt 16, 25; Mc 8, 35; Lc 9, 24; 17, 33: “Quem procurar salvaguardar a vida, perdê-la-á, e quem a perder, conservá-la-á”).

 

Daqui se vê também o alcance do significado da frase que precede, nos evangelhos sinópticos, esta afirmação central da sua mensagem: “Se alguém quiser vir após Mim, renegue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me” (Mt 16, 24).

 

Com todas estas palavras, o próprio Jesus nos dá a interpretação da «Via-Sacra», ensina-nos como devemos fazê-la e segui-la: a Via-Sacra é o caminho da perda de nós mesmos, isto é, o caminho do amor verdadeiro.

 

Ele precedeu-nos neste caminho; este é o caminho que a devoção da Via-Sacra nos quer ensinar. E isto leva-nos mais uma vez ao grão de trigo, à Santíssima Eucaristia, na qual se torna continuamente presente entre nós o fruto da morte e da ressurreição de Jesus. Na Eucaristia, Ele caminha conosco, como outrora com os discípulos de Emaús, fazendo-Se constantemente nosso contemporâneo.


Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

 

Senhor Jesus Cristo, por nós aceitastes a sorte do grão de trigo que cai na terra e morre para produzir muito fruto (Jo 12, 24). E convidais-nos a seguir-Vos pelo mesmo caminho quando dizeis: “Quem ama a sua vida perdê-la-á, e quem neste mundo aborrece a sua vida conservá-la-á para a vida eterna” (Jo 12, 15). Mas nós estamos agarrados à nossa vida. Não queremos abandoná-la, mas reservá-la inteiramente para nós mesmos. Queremos possuí-la; não oferecê-la.

 

Mas Vós seguis à nossa frente e mostrais-nos que só dando a nossa vida é que podemos salvá-la. Acompanhando-Vos na vossa Via-Sacra, quereis que sigamos o caminho do grão de trigo, o caminho duma fecundidade que dura até à eternidade.

 

A cruz – a oferta de nós mesmos – custa-nos muito. Mas, na vossa Via-Sacra, carregastes também a minha cruz, e não o fizestes num momento remoto qualquer, porque o vosso amor é contemporâneo à minha vida.

 

Hoje mesmo carregais a cruz comigo e por mim, e, de modo admirável, quereis que agora também eu, como outrora Simão de Cirene, carregue convosco a vossa cruz e, acompanhando-Vos, me coloque convosco ao serviço da redenção do mundo. Ajudai-me para que a minha Via-Sacra não seja apenas um fugidio devoto sentimento.

 

Ajudai-nos a acompanhar-Vos não somente com nobres pensamentos, mas a percorrer o vosso caminho com o coração, antes, com os passos concretos da nossa vida diária. Ajudai-nos para que sigamos com todo o nosso ser o caminho da cruz, e permaneçamos no vosso caminho para sempre.

 

Livrai-nos do medo da cruz, do medo perante a troça alheia, do medo de poder fugir-nos a nossa vida se não agarrarmos tudo o que ela nos oferece. Ajudai-nos a desmascarar as tentações que prometem vida, mas cujas ofertas no fim nos deixam apenas vazios e desiludidos. Ajudai-nos a não querer apoderarmo-nos da vida, mas a dá-la.

 

Ajudai-nos, acompanhando-Vos pelo percurso do grão de trigo, a encontrar, no «perder a vida», o caminho do amor, o caminho que verdadeiramente nos dá a vida, e vida em abundância (Jo 10, 10).


1ª Estação:

JESUS É CONDENADO À MORTE    

Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos, porque

pela Vossa santa cruz remistes o mundo.

 

Leitura: Retorquiu-lhes Pilatos: “E que hei-de fazer de Jesus que é chamado Messias” Replicaram todos: “Seja crucificado!” Pilatos insistiu: “Então, que mal fez Ele” Mas

eles gritavam mais ainda: “Seja crucificado!” (…) Soltou-lhes então Barrabás. E a Jesus, depois de O ter mandado açoitar, entregou-O para ser crucificado

(Mateus 27, 22-23.26).

 

Meditação: O Juiz do mundo, que um dia voltará para nos julgar a todos, está ali, aniquilado, insultado e inerme diante do juiz terreno. Pilatos não é um monstro de

malvadez. Sabe que este condenado é inocente; procura um modo de O libertar. Mas o seu coração está dividido. E, no fim, faz prevalecer a sua posição, a si

mesmo, sobre o direito. Também os homens que gritam e pedem a morte de Jesus não são monstros de malvadez. Muitos deles, no dia de Pentecostes, sentir-se-ão «emocionados até

ao fundo do coração» (Atos 2, 37), quando Pedro lhes disser: A «Jesus de Nazaré, Homem acreditado por Deus junto de vós, (…), matastes, cravando-O na cruz

pela mão de gente perversa» (Act 2, 22.23). Mas naquele momento sofrem a influência da multidão. Gritam porque os outros gritam e como gritam os outros. E, assim, a justiça é espezinhada pela

cobardia, pela pusilanimidade, pelo medo do diktat da mentalidade predominante. A voz subtil da consciência fica sufocada pelos gritos da multidão. A indecisão, o respeito humano dão força ao mal.

 

Oração: Senhor, fostes condenado à morte porque o medo do olhar alheio sufocou a voz da consciência. E, assim, acontece que, sempre ao longo de toda a história,

inocentes sejam maltratados, condenados e mortos. Quantas vezes também nós preferimos o sucesso à verdade, a nossa reputação à justiça. Dai força, na nossa vida, à voz subtil da consciência, à vossa voz.

Olhai-me como olhastes para Pedro depois de Vos ter negado. Fazei com que o vosso olhar penetre nas nossas almas e indique a direção à nossa vida. Àqueles que na Sexta-feira Santa gritaram contra Vós, no dia de

Pentecostes destes a contrição do coração e a conversão. E assim destes esperança a todos nós. Não cesseis de dar também a nós a graça da conversão.


2ª Estação:

JESUS TOMA A CRUZ AOS OMBROS    

Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos, porque

pela Vossa santa cruz remistes o mundo.

 

Leitura: Então, os soldados do governador levaram Jesus para o Pretório e reuniram junto d’Ele toda a companhia. Depois de O terem despido, envolveram-no em um

manto encarnado. Teceram uma coroa de espinhos, que Lhe puseram na cabeça, e, na mão direita, colocaram-Lhe uma cana. Ajoelharam-se diante d’Ele e

escarneceram-no dizendo: “Salve, ó rei dos Judeus!” Depois, cuspiram n’Ele e pegaram na cana e puseram-se a bater-Lhe com ela na cabeça. No fim de O

terem escarnecido, despiram-Lhe o manto, vestiram-Lhe as suas roupas e levaram-no para O crucificarem (Mateus 27, 27-31).

 

Meditação: Jesus, condenado como pretenso rei, é escarnecido, mas, precisamente na troça aparece cruelmente a verdade. Quantas vezes as insígnias do poder trazidas

pelos poderosos deste mundo são um insulto à verdade, à justiça e à dignidade do homem! Quantas vezes os seus rituais e as suas grandes palavras,

verdadeiramente, não passam de pomposas mentiras, uma caricatura do dever que lhes incumbe por força do seu cargo, ou seja, colocar-se ao serviço do bem. Por isso mesmo, Jesus, Aquele que é escarnecido e que traz a coroa do sofrimento, é o verdadeiro rei. O seu cetro é justiça (Salmo 45/44, 7). O preço da justiça é sofrimento neste mundo: Ele, o verdadeiro rei, não reina por meio da violência, mas através do amor com que sofre por nós e conosco. Ele

carrega a cruz, a nossa cruz, o peso de sermos homens, o peso do mundo. É assim que Ele nos precede e mostra como encontrar o caminho para a vida

verdadeira.

 

Oração: Senhor, deixastes que Vos escarnecessem e ultrajassem. Ajudai-nos a não fazer coro com aqueles que escarnecem quem sofre e quem é frágil. Ajudai-nos a

reconhecer o vosso rosto em quem é humilhado e marginalizado. Ajudai-nos a não desanimar perante as zombarias do mundo quando a obediência à vossa

vontade é considerada ridícula. Carregastes a cruz e convidastes-nos a seguir-Vos por este caminho (Mt 10, 38). Ajudai-nos a aceitar a cruz, a não fugir dela, a não lamentarmo-nos nem

deixar que os nossos corações se abatam com as provas da vida. Ajudai-nos a percorrer o caminho do amor e, obedecendo às suas exigências, alcançar a

verdadeira alegria.


3ª Estação:

JESUS CAI PELA PRIMEIRA VEZ    

Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos, porque

pela Vossa santa cruz remistes o mundo.

 

Leitura: Eram os nossos males que Ele suportava, e as nossas dores que tinha sobre Si. Mas nós víamos n’Ele um homem castigado, ferido por Deus e sujeito à

humilhação. Ele foi trespassado por causa das nossas culpas, e esmagado devido às nossas faltas. O castigo que nos salva, caiu sobre Ele, e por causa das suas

chagas é que fomos curados. Todos nós, como ovelhas, andávamos errantes, seguindo cada qual o seu caminho. E o Senhor fez cair sobre Ele as faltas de todos

nós (Isaías 53, 4-6).

 

Meditação: O homem caiu e continua a cair: quantas vezes ele se torna a caricatura de si mesmo! Já não é a imagem de Deus, mas algo que mete a ridículo o Criador. Aquele que, ao descer de Jerusalém para Jericó, embateu nos ladrões que o despojaram deixando-o meio morto, sangrando na beira da estrada, não é

porventura a imagem por excelência do homem? A queda de Jesus sob a cruz não é apenas a queda do homem Jesus já extenuado pela flagelação. Aqui aparece algo mais profundo, como diz Paulo na carta aos Filipenses: “Ele que era de condição divina não reivindicou o direito de ser equiparado a Deus.

Mas despojou-Se a Si mesmo tomando a condição de servo, tornando-Se semelhante aos homens (…) humilhou-Se a Si mesmo, feito obediente até à morte e

morte de cruz” (Fil 2, 6-8). Na queda de Jesus sob o peso da cruz, é visível todo este seu itinerário: a sua voluntária humilhação para nos levantar do nosso orgulho. E ao mesmo tempo

aparece a natureza do nosso orgulho: a soberba pela qual desejamos emancipar-nos de Deus sendo apenas nós mesmos, pela qual cremos que não temos

necessidade do amor eterno, mas queremos organizar a nossa vida sozinhos. Nesta revolta contra a verdade, nesta tentativa de nos tornarmos deus, de sermos criadores e juízes de nós mesmos, caímos e acabamos por autodestruir-nos.

A humilhação de Jesus é a superação da nossa soberba: com a sua humilhação, Ele faz-nos levantar. Deixemos que nos levante. Despojemo-nos da nossa autossuficiência, da nossa errada cisma de autonomia e aprendamos o contrário d’Ele, d’Aquele que Se humilhou, ou seja, aprendamos

a encontrar a nossa verdadeira grandeza, humilhando-nos e voltando-nos para Deus e para os irmãos espezinhados.

 

Oração: Senhor Jesus, o peso da cruz fez-Vos cair por terra. O peso do nosso pecado, o peso da nossa soberba deita-Vos ao chão. Mas, a vossa queda não é sinal de um

destino adverso, nem é a pura e simples fraqueza de quem é espezinhado. Quisestes vir até junto de nós que, pela nossa soberba, jazemos por terra. A soberba de pensar que somos capazes de produzir o homem fez com que os

homens se tenham tornado uma espécie de mercadoria para comprar e vender, como que uma reserva de material para as nossas experiências, pelas quais

esperamos de, por nós mesmos, superar a morte, quando, na verdade, conseguimos apenas humilhar cada vez mais profundamente a dignidade do homem. Senhor, vinde em nossa ajuda, porque caímos. Ajudai-nos a abandonar a nossa soberba devastadora e, aprendendo da vossa humildade, a pormo-nos

novamente de pé.


4ª Estação:

JESUS ENCONTRA SUA MÃE    

Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos, porque

pela Vossa santa cruz remistes o mundo.

 

Leitura: Simeão abençoou-os e disse a Maria, sua Mãe: “Ele foi estabelecido para a queda e o ressurgir de muitos em Israel, e para ser sinal de contradição; e uma

espada Te há de traspassar a alma. Assim se deverão revelar os intentos de muitos corações” (…) Sua mãe guardava no coração todas estas recordações

(Lucas 2, 34-35.51).

 

Meditação: Na Via-Sacra de Jesus aparece também Maria, sua Mãe. Durante a sua vida pública, ela teve de ficar de lado para dar lugar ao nascimento da nova família de

Jesus, a família dos seus discípulos. Teve também de ouvir estas palavras: “Quem é a minha Mãe e quem são os meus irmãos? (…) Todo aquele que fizer a

vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mt 12, 48-50). Pode-se agora constatar que Ela é a Mãe de Jesus não só no corpo, mas também no coração. Ainda antes de O ter concebido no corpo, pela sua obediência

concebera-O no coração. Fora-Lhe dito: “Hás de conceber no teu seio e dar à luz um filho (…) Será grande (…) O Senhor Deus dar-Lhe-á o trono de seu pai,

David” (Lc 1, 31-32). Mas algum tempo depois ouvira da boca do velho Simeão uma palavra diferente: “Uma espada há de trespassar tua alma” (Lc 2, 35). Deste modo ter-Se-á lembrado de certas palavras pronunciadas pelos profetas, tais como: “Foi maltratado e resignou-se, não abriu a boca, como cordeiro levado

ao matadouro” (Is 53, 7). Agora tudo isto se torna realidade. No coração, tinha sempre conservado as palavras que o anjo Lhe dissera quando tudo começou:

“Não tenhas receio, Maria” (Lc 1, 30). Os discípulos fugiram; Ela não foge. Ela está ali, com a coragem de mãe, com a fidelidade de mãe, com a bondade de mãe, e com a sua fé, que resiste na

escuridão: “Feliz daquela que acreditou” (Lc 1, 45). “Mas, quando o Filho do Homem voltar, encontrará fé sobre a terra?” (Lc 18, 8). Sim, agora Ele sabe:

encontrará fé. E esta é, naquela hora, a sua grande consolação.

 

Oração: Santa Maria, Mãe do Senhor, permanecestes fiel quando os discípulos fugiram. Tal como acreditastes quando o anjo vos anunciou o que era incrível – que

haverias de ser Mãe do Altíssimo –, assim também acreditastes na hora da sua maior humilhação. E foi assim que, na hora da cruz, na hora da noite mais escura do mundo, vos tornastes Mãe dos crentes, Mãe da Igreja. Nós vos pedimos: ensinai-nos a

acreditar e ajudai-nos para que a fé se torne coragem de servir e gesto de um amor que socorre e sabe partilhar o sofrimento.


5ª Estação:

JESUS É AJUDADO POR SIMÃO, O CIRENEU, QUE LEVA A CRUZ    

Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos, porque

pela Vossa santa cruz remistes o mundo.

 

Leitura: Ao saírem, encontraram um homem de Cirene, chamado Simão, e requisitaram-no, para levar a cruz de Jesus. Jesus disse aos seus discípulos: “Se alguém

quiser seguir-Me, renegue-se a si mesmo, pegue na sua cruz e siga-Me” (Mateus 27, 32; 16, 24).

 

Meditação: Simão de Cirene regressa do trabalho, vai a caminho de casa quando se cruza com aquele triste cortejo de condenados – para ele talvez fosse um espetáculo

habitual. Os soldados valem-se do seu direito de coação e colocam a cruz às costas dele, robusto homem do campo. Que aborrecimento não deverá ter sentido ao ver-se inesperadamente envolvido no destino daqueles condenados! Faz o que deve fazer, mas certamente com

grande relutância. E, todavia, o evangelista Marcos nomeia, juntamente com ele, também os seus filhos, que evidentemente eram conhecidos como cristãos,

como membros daquela comunidade (Mc 15, 21). Do encontro involuntário, brotou a fé. Acompanhando Jesus e compartilhando o peso da cruz, o Cireneu compreendeu que era uma graça poder caminhar

juntamente com este Crucificado e assisti-Lo. O mistério de Jesus que sofre calado tocou-lhe o coração. Jesus, cujo amor divino era o único que podia, e pode,

redimir a humanidade inteira, quer que compartilhemos a sua cruz para completar o que ainda falta aos seus sofrimentos (Col 1, 24). Sempre que, bondosamente, vamos ao encontro de alguém que sofre, alguém que é perseguido e inerme, partilhando o seu sofrimento, ajudamos a levar a

própria cruz de Jesus. E assim obtemos salvação, e nós mesmos podemos contribuir para a salvação do mundo.

 

Oração: Senhor, abristes a Simão de Cirene os olhos e o coração, dando-lhe, na partilha da cruz, a graça da fé. Ajudai-nos a assistir o nosso próximo que sofre, ainda

que este chamamento resultasse em contradição com os nossos projetos e as nossas simpatias. Concedei-nos reconhecer que é uma graça poder partilhar a cruz dos outros e experimentar que dessa forma estamos a caminhar convosco. Fazei-nos reconhecer com alegria que é precisamente pela partilha do vosso sofrimento e dos sofrimentos deste mundo que nos tornamos ministros da salvação,

podendo assim ajudar a construir o vosso corpo, a Igreja.


6ª Estação:

VERÔNICA LIMPA O ROSTO DE JESUS    

Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos, porque

pela Vossa santa cruz remistes o mundo.

 

Leitura: O meu Servo cresceu (…) sem distinção nem beleza que atraia o nosso olhar, nem aspecto agradável que possa cativar-nos. Desprezado e repelido pelos

homens, homem de dores, afeito ao sofrimento, é como aquele a quem se volta a cara, pessoa desprezível, da qual se não faz caso (Isaías 53, 2-3). Segredou-me o coração: “Procura a sua face!” É, Senhor, o vosso rosto que eu persigo. Não escondais de mim o vosso rosto, nem rejeiteis com ira o vosso

servo. Vós sois a minha ajuda, o Deus da minha salvação (Salmos 27/26, 8-9).

 

Meditação: “É, Senhor, o vosso rosto que eu persigo. Não escondais de mim o vosso rosto” (Sl 27/26, 8). Verônica – Berenice, segundo a tradição grega – encarna este

anseio que irmana todos os homens piedosos do Antigo Testamento, o anseio que provam todos os homens crentes de verem o rosto de Deus. Em todo o caso, na Via-Sacra de Jesus, inicialmente ela limitara-se a prestar um serviço de gentileza feminina: oferecer um lenço a Jesus. Não se deixa

contagiar pela brutalidade dos soldados, nem se imobilizar pelo medo dos discípulos. É a imagem da mulher bondosa que, perante o turbamento e escuridão dos

corações, mantém a coragem da bondade, não permite ao seu coração de entenebrecer-se: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” –

dissera o Senhor no discurso da Montanha (Mt 5, 8). Ao princípio, Verônica via apenas um rosto maltratado e marcado pela dor. Mas, o ato de amor imprime no seu coração a verdadeira imagem de Jesus: no Rosto

humano, coberto de sangue e de feridas, ela vê o Rosto de Deus e da sua bondade que nos acompanha mesmo na dor mais profunda. Somente com o coração

podemos ver Jesus. Apenas o amor nos torna capazes de ver e nos torna puros. Só o amor nos faz reconhecer Deus, que é o próprio amor.

 

Oração: Senhor, dai-nos a inquietação do coração que procura o vosso rosto. Protegei-nos do obscurecimento do coração que vê apenas a superfície das coisas.

Concedei-nos aquela generosidade e pureza de coração que nos tornam capazes de ver a vossa presença no mundo. Quando não formos capazes de realizar grandes coisas, dai-nos a coragem de uma bondade humilde. Imprimi o vosso rosto nos nossos corações, para podermos

vos encontrar e mostrar ao mundo a vossa imagem.


7ª Estação:

JESUS CAI PELA SEGUNDA VEZ    

Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos, porque

pela Vossa santa cruz remistes o mundo.

 

Leitura: Eu sou o homem que conheceu a miséria sob a vara do seu furor. Ele me guiou e me fez andar nas trevas e não na luz. (…) Embarrou meus caminhos com

blocos de pedra, obstruiu minhas veredas. (…) Ele quebrou meus dentes com cascalho, mergulhou-me na cinza (Lamentações 3, 1-2.9.16).

 

Meditação: A tradição da tríplice queda de Jesus sob o peso da cruz recorda a queda de Adão – o ser humano caído que somos nós – e o mistério da associação de Jesus à

nossa queda. Na história, a queda do homem assume sempre novas formas. Na sua primeira carta, São João fala de uma tríplice queda do homem: a concupiscência da carne,

a concupiscência dos olhos e a soberba da vida. Assim interpreta ele a queda do homem e da humanidade, no horizonte dos vícios do seu tempo com todos os

seus excessos e depravações. Mas, olhando a história mais recente, podemos também pensar como a cristandade, cansada da fé, abandonou o Senhor: as grandes ideologias, com a

banalização do homem que já não crê em nada e se deixa simplesmente ir à deriva, construíram um novo paganismo, um paganismo pior que o antigo, o qual,

desejoso de marginalizar definitivamente Deus, acabou por perder o homem. Eis o homem que jaz no pó. O Senhor carrega este peso e cai… cai, para poder chegar até nós; Ele olha-nos para que em nós volte a palpitar o coração; cai

para nos levantar.

 

Oração: Senhor Jesus Cristo, carregastes o nosso peso e continuais a carregar-nos. É o nosso peso que Vos faz cair. Mas sois Vós a levantar-nos, porque, sozinhos, não

conseguimos levantar-nos do pó. Livrai-nos do poder da concupiscência. Em vez do coração de pedra, dai-nos novamente um coração de carne, um coração capaz de ver. Destruí o poder das ideologias, para os homens poderem reconhecer que estão permeadas de mentiras. Não permitais que o muro do materialismo se torne

intransponível. Fazei com que Vos ouçamos de novo. Tornai-nos sóbrios e vigilantes para podermos resistir às forças do mal, e ajudai-nos a reconhecer as necessidades interiores e exteriores dos outros, e a

socorrê-las. Erguei-nos, para podermos levantar os outros. Concedei-nos esperança no meio de toda esta escuridão, para podermos ser portadores de esperança no

mundo.


8ª Estação:

JESUS CONSOLA AS FILHAS DE JERUSALÉM    

Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos, porque

pela Vossa santa cruz remistes o mundo.

 

Leitura: Jesus voltou-se para elas e disse-lhes: “Mulheres de Jerusalém, não choreis por mim; chorai antes por vós mesmas e pelos vossos filhos. Pois dias virão em que

se dirás: ‘Felizes as estéreis, as entranhas que não tiveram filhos e os peitos que não amamentaram’. Nessa altura, começarão a dizer aos montes: ‘Caí sobre

nós’, e às colinas: ‘Encobri-nos’. Porque se fazem assim no madeiro verde, que será no madeiro seco?” (Lucas 23, 28-31).

 

Meditação: As palavras com que Jesus adverte as mulheres de Jerusalém que o seguem e choram por ele, fazem-nos refletir. Como entendê-las? Não se trata porventura de uma advertência contra uma piedade puramente sentimental, que não se torna conversão e fé vivida? De nada serve lamentar, por

palavras e sentimentalmente, os sofrimentos deste mundo, se a nossa vida continua sempre igual. Por isso, o Senhor nos adverte do perigo em que nós próprios

nos encontramos. Mostra-nos a seriedade do pecado e a seriedade do juízo. Apesar de todas as nossas palavras de horror à vista do mal e dos sofrimentos dos inocentes, não

somos nós porventura demasiado inclinados a banalizar o mistério do mal? Da imagem de Deus e de Jesus, no fim das contas, admitimos apenas o aspecto terno

e amável, enquanto tranquilamente cancelamos o aspecto do juízo? Como poderia Deus fazer-se um drama com a nossa fragilidade – pensamos cá conosco –;

não passamos de simples homens?! Mas, fixando os sofrimentos do Filho, vemos toda a seriedade do pecado, vemos como tem de ser expiado até o fim para poder ser superado. Não se pode

continuar a banalizar o mal, quando vemos a imagem do Senhor que sofre. Também a nós, diz ele: Não choreis por mim, chorai por vós próprios… porque se tratam assim o madeiro verde, que será do madeiro seco?

 

Oração: Senhor, às mulheres que choravam, falastes de penitência, do dia do Juízo, quando nos encontrarmos diante da vossa face, a face do Juiz do mundo. Chamai-

nos a sair da banalização do mal que nos deixa tranquilos para podermos continuar a nossa vida de sempre. Mostrai-nos a seriedade da nossa responsabilidade, o perigo de sermos encontrados, no Juízo, culpados e estéreis. Fazei com que não nos limitemos a caminhar

ao vosso lado, oferecendo apenas palavras de compaixão. Convertei-nos e dai-nos uma vida nova; não permitais que acabemos por ficar como um madeiro seco, mas fazei que nos tornemos ramos vivos em vós, a

videira verdadeira, e produzamos fruto para a vida eterna (Jo 15, 1-10).


9ª Estação:

JESUS CAI PELA TERCEIRA VEZ    

Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos, porque

pela Vossa santa cruz remistes o mundo.

 

Leitura: É bom para o homem suportar o jugo desde a sua juventude. Que esteja solitário e silencioso, quando o Senhor o impuser sobre ele; que ponha sua boca no

pó: talvez haja esperança! Que dê sua face a quem o fere e se sacie de opróbrios. Pois o Senhor não rejeita para sempre: se Ele aflige, Ele se compadece

segundo a sua grande bondade (Lamentações 3, 27-32).

 

Meditação: E que dizer da terceira queda de Jesus sob o peso da cruz? Pode talvez fazer-nos pensar na queda do homem em geral, no afastamento de muitos de Cristo,

caminhando à deriva para um secularismo sem Deus. Mas não deveríamos pensar também em tudo quanto Cristo tem sofrido na sua própria Igreja? Quantas vezes se abusa do Santíssimo Sacramento, da sua

presença. Frequentemente como está vazio e ruim o coração onde Ele entra! Tantas vezes celebramos apenas nós próprios, sem nos darmos conta sequer d’Ele! Quantas vezes se contorce e abusa da sua Palavra! Quão pouca fé existe em tantas teorias, quantas palavras vazias! Quanta sujeira há na Igreja, e

precisamente entre aqueles que, no sacerdócio, deveriam pertencer completamente a Ele! Quanta soberba, quanta autossuficiência! Respeitamos tão pouco o

sacramento da reconciliação, onde Ele está à nossa espera para nos levantar das nossas quedas! Tudo isto está presente na sua paixão. A traição dos discípulos, a recepção indigna do seu Corpo e do seu Sangue é certamente o maior sofrimento do Redentor, o que Lhe trespassa o coração. Nada mais podemos fazer que dirigir-Lhe, do mais fundo da alma, este grito: Kyrie, eleison (Senhor, tende piedade de nós) – Senhor, salvai-nos (Mt 8, 25).

 

Oração: Senhor, muitas vezes a vossa Igreja parece-nos uma barca que está para afundar, uma barca que mete água por todos os lados. E mesmo no vosso campo de

trigo, vemos mais cizânia que trigo. O vestido e o rosto tão sujos da vossa Igreja horrorizam-nos. Mas somos nós mesmos que os sujamos! Somos nós mesmos que vos traímos sempre, depois de todas as nossas grandes palavras, os nossos grandes gestos.

Tende piedade da vossa Igreja: também dentro dela, Adão continua a cair. Com a nossa queda, deitamos-vos ao chão, e satanás a rir-se, porque espera que não mais conseguireis levantar-Vos daquela queda; espera que vós, tendo

sido arrastado na queda da vossa Igreja, ficareis por terra derrotado. Mas, vós erguer-vos-eis. Vós levantastes-Vos, ressuscitastes e podeis levantar-nos

também a nós. Salvai e santificai a vossa Igreja. Salvai e santificai a todos nós.


10ª Estação:

JESUS É DESPOJADO DE SUAS VESTES    

Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos, porque

pela Vossa santa cruz remistes o mundo.

 

Leitura: Chegados a um lugar chamado Gólgota, que quer dizer “Lugar da caveira”. Deram-Lhe a beber vinho misturado com fel. Mas Jesus, quando o provou, não quis

beber. Depois de O terem crucificado, repartiram entre si as suas vestes, tirando a sorte sobre elas, e ficaram ali sentados a guardá-Lo (Mateus 27, 33-36).

 

Meditação: Jesus é despojado das suas vestes. A roupa confere ao homem a sua posição social; dá-lhe o seu lugar na sociedade, fá-lo sentir alguém. Ser despojado em público significa que Jesus já não é ninguém, nada mais é que um marginalizado, desprezado por todos. O momento do despojamento

recorda-nos também a expulsão do paraíso: o homem ficou sem o esplendor de Deus, que agora está ali, nu e exposto, desnudado e envergonha-se. Deste

modo, Jesus assume mais uma vez a situação do homem caído. Jesus despojado recorda-nos o fato de que todos nós perdemos a “primeira veste”, isto é, o esplendor de Deus. Junto da cruz, os soldados lançam sorte para

repartirem entre si os seus míseros haveres, as suas vestes. Os evangelistas narram isto com palavras tiradas do Salmo 22, 19 e assim afirmam-nos o mesmo que Jesus há de dizer aos discípulos de Emaús: tudo

aconteceu “conforme as Escrituras”. Não se trata aqui de pura coincidência, tudo o que acontece está contido na Palavra de Deus e assente no seu desígnio divino. O Senhor experimenta todos os

estádios e degraus da perdição dos homens, e cada um destes degraus é, com toda a sua amargura, um passo da redenção: é precisamente assim que Ele traz

de volta para casa a ovelha perdida. Recordemos ainda que, segundo diz São João, o objeto do sorteio era a túnica de Jesus, a qual, “toda tecida de alto a baixo, não tinha costura” (Jo 19, 23).

Podemos considerar isto como uma alusão à veste do sumo sacerdote, que era “tecida como um todo”, sem costura (Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas, III,

161). Ele, o Crucificado, é realmente o verdadeiro sumo sacerdote.

 

Oração: Senhor Jesus, fostes despojado das vossas vestes, exposto à desonra, expulso da sociedade. Assumistes sobre Vós a desonra de Adão, sanando-a. Assumistes os sofrimentos e as necessidades dos pobres, daqueles que são expulsos do mundo. Deste

modo é que realizais a palavra dos profetas. É precisamente assim que dais significado àquilo que não tem significado. Assim mesmo nos dais a conhecer que nas mãos do vosso Pai estais Vós, nós e o

mundo. Concedei-nos um respeito profundo pelo homem em todas as fases da sua existência e em todas as situações onde o encontrarmos. Dai-nos a veste luminosa

da vossa graça.


11ª Estação:

JESUS É PREGADO NA CRUZ    

Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos, porque

pela Vossa santa cruz remistes o mundo.

 

Leitura: Puseram por cima da cabeça d’Ele um letreiro escrito com a causa da condenação: “Este é Jesus, o Rei dos Judeus”. Foram então crucificados com Ele dois

salteadores, um à direita e outro à esquerda. Os que passavam dirigiam-Lhe insultos, abanavam a cabeça e diziam: “Tu que demolias o Templo e o reedificavas

em três dias, salva-Te a Ti mesmo, se és Filho de Deus, e desce da cruz! ” De igual modo, também os sumos sacerdotes troçavam, juntamente com os escribas

e os anciãos, e diziam: “Salvou os outros e a Si mesmo não pode salvar-Se! É Rei de Israel! Desça agora da cruz, e acreditaremos n’Ele” (Mateus 27, 37-

42).

 

Meditação: Jesus é pregado na cruz. O sudário de Turim permite formar uma ideia da crueldade incrível deste processo. Jesus não toma a bebida anestesiante que Lhe fora

oferecida: conscientemente assume todo o sofrimento da crucifixão. Todo o seu corpo é martirizado; cumpriram-se as palavras do Salmo: “Eu, porém, sou um verme e não um homem, o opróbrio dos homens e a abjeção da

plebe” (Sal 22/21, 7). “Como um homem (…) diante do qual se tapa o rosto, menosprezado e desestimado. Na verdade, Ele tomou sobre Si as nossas doenças, carregou as nossas dores” (Is 53, 3-4). Detenhamo-nos diante desta imagem de sofrimento, diante do Filho

de Deus sofredor. Olhemos para Ele nos momentos de presunção e de prazer, para aprendermos a respeitar os limites e a ver a superficialidade de todos os

bens puramente materiais. Olhemos para Ele nos momentos de calamidade e de angústia, para reconhecermos que precisamente assim estamos perto de Deus. Procuremos reconhecer o

seu rosto naqueles que tendemos a desprezar. Diante do Senhor condenado, que não quer usar o seu poder para descer da cruz, mas antes suportou o

sofrimento da cruz até ao fim, pode assomar ainda outro pensamento. Inácio de Antioquia, ele mesmo preso com cadeias pela sua fé no Senhor, elogiou os cristãos de Esmirna pela sua fé inabalável: afirma que estavam, por assim

dizer, pregados com a carne e o sangue à cruz do Senhor Jesus Cristo (1, 1). Deixemo-nos pregar a Ele, sem ceder a qualquer tentação de nos separarmos nem ceder às zombarias que pretendem levar-nos a fazê-lo.

 

Oração: Senhor Jesus Cristo, fizestes-Vos pregar na cruz, aceitando a crueldade terrível deste tormento, a destruição do vosso corpo e da vossa dignidade. Fizestes-Vos

pregar, sofrestes sem evasões nem descontos. Ajudai-nos a não fugir perante o que somos chamados a realizar. Ajudai-nos a fazermo-nos ligar estreitamente a

Vós. Ajudai-nos a desmascarar a falsa liberdade que nos quer afastar de Vós. Ajudai-nos a aceitar a vossa liberdade e a encontrar nesta estreita ligação

convosco a verdadeira liberdade.


12ª Estação:

JESUS MORRE NA CRUZ    

Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos, porque

pela Vossa santa cruz remistes o mundo.

 

Leitura: A partir do meio-dia, houve trevas em toda a região, até às três horas da tarde. E, pelas três horas da tarde, Jesus bradou com voz forte: “Eli, Eli, lemá

sabachthani”, quer dizer, “Meu Deus, Meu Deus, porque Me abandonaste? ” Alguns dos presentes ouviram e disseram: “Está a chamar por Elias”. E logo um

deles correu a pegar numa esponja, ensopou-a em vinagre, pô-la numa cana e deu-Lhe a beber. Mas os outros disseram: “Deixa lá! Vejamos se Elias vem

salvá-Lo”. E Jesus, dando novamente um forte brado, expirou. Entretanto, o centurião e os que estavam com ele de guarda, ao verem o tremor de terra e o que estava a suceder, ficaram aterrados e disseram: “Ele era, na

verdade, Filho de Deus” (Mateus 27, 45-50.54).

 

Meditação: No cimo da cruz de Jesus – nas duas línguas do mundo de então, o grego e o latim, e na língua do povo eleito, o hebraico – está escrito quem é: o Rei dos

Judeus, o Filho prometido a David. Pilatos, o juiz injusto, tornou-se profeta sem querer. Perante a opinião pública mundial é proclamada a realeza de Jesus. O próprio Jesus não tinha aceite o título

de Messias, enquanto poderia induzir a uma ideia errada, humana, de poder e de salvação. Mas, agora, o título pode estar escrito ali publicamente sobre o

Crucificado. Ele, assim, é verdadeiramente o rei do mundo. Agora foi verdadeiramente “elevado”. Na sua descida, Ele subiu. Agora cumpriu radicalmente o mandamento do

amor, cumpriu a oferta de Si próprio, e precisamente deste modo Ele é agora a manifestação do verdadeiro Deus, daquele Deus que é amor. Agora sabemos

quem é Deus. Agora sabemos como é a verdadeira realeza. Jesus reza o Salmo 22, que começa por estas palavras: “Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonaste? ” (Sal

22/21, 2). Assume em Si mesmo todo o Israel, a humanidade inteira, que sofre o drama da escuridão de Deus, e faz com que Deus Se manifeste precisamente

onde parece estar definitivamente derrotado e ausente. A cruz de Cristo é um acontecimento cósmico. O mundo fica na escuridão, quando o Filho de Deus sofre a morte. A terra treme. E junto da cruz tem início a

Igreja dos pagãos. O centurião romano reconhece, compreende que Jesus é o Filho de Deus. Da cruz, Ele triunfa sem cessar.

 

Oração: Senhor Jesus Cristo, na hora da vossa morte, o sol escureceu. Sois pregado na cruz sem cessar. Precisamente nesta hora da história, vivemos na escuridão de

Deus. Pelo sofrimento sem medida e pela maldade dos homens, o rosto de Deus, o vosso rosto, aparece obscurecido, irreconhecível. Mas foi precisamente na

cruz que Vos fizestes reconhecer. Precisamente enquanto sois Aquele que sofre e que ama, sois aquele que é elevado. Foi precisamente lá que triunfastes. Ajudai-nos a reconhecer, nesta hora de

escuridão e confusão, o vosso rosto. Ajudai-nos a crer em Vós e a seguir-Vos precisamente na hora da escuridão e da privação. Mostrai-Vos novamente ao mundo nesta hora. Fazei com que a vossa salvação se manifeste.


13ª Estação:

JESUS É DESCIDO DA CRUZ    

Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos, porque

pela Vossa santa cruz remistes o mundo.

 

Leitura: O centurião e os que estavam com ele de guarda, ao verem o tremor de terra e o que estava a suceder, ficaram aterrados e disseram: “Ele era, na verdade,

Filho de Deus”. Estavam ali, a observar de longe, muitas mulheres, que tinham seguido Jesus desde a Galiléia, para O servirem (Mateus 27, 54-55).

 

Meditação: Jesus morreu, o seu coração é trespassado pela lança do soldado romano e dele brotam sangue e água: misteriosa imagem do rio dos sacramentos, do Batismo

e da Eucaristia, dos quais, em virtude do coração trespassado do Senhor, renasce incessantemente a Igreja. E não lhe são quebradas as pernas, como aos outros dois crucificados; deste modo Ele aparece como o verdadeiro cordeiro pascal, ao qual nenhum osso deve

ser quebrado (Ex 12, 46). E agora que tudo suportou, vemos que Ele, apesar de toda a confusão dos corações, apesar do poder do ódio e da covardia, não ficou sozinho. Os fiéis existem.

Junto da cruz, estavam Maria, sua Mãe, a irmã de sua Mãe, Maria, Maria de Magdala e o discípulo que Ele amava. Agora chega também um homem rico, José de Arimateia: o rico encontra modo de passar pelo buraco de uma agulha, porque Deus lhe dá a graça. Sepulta

Jesus no seu túmulo ainda intacto, num jardim: o cemitério onde fica sepultado Jesus transforma-se em jardim, no jardim donde fora expulso Adão quando se

separara da plenitude da vida, do seu Criador. O túmulo no jardim faz-nos saber que o domínio da morte está para terminar. E chega também um membro do Sinédrio, Nicodemos, a quem Jesus tinha

anunciado o mistério do renascimento pela água e pelo Espírito. Até no Sinédrio, que tinha decidido a sua morte, há alguém que acredita, que conhece e

reconhece Jesus após a sua morte. Sobre a hora do grande luto, da grande escuridão e do desespero, aparece misteriosamente a luz da esperança. O Deus escondido permanece em todo o caso o

Deus vivo e próximo. O Senhor morto permanece em todo o caso o Senhor e nosso Salvador, mesmo na noite da morte. A Igreja de Jesus Cristo, a sua nova

família, começa a formar-se.

 

Oração: Senhor, descestes à escuridão da morte. Mas o vosso corpo é recolhido por mãos bondosas e envolvido num cândido lençol (Mt 27, 59). A fé não está completamente morta, não se pôs totalmente o sol. Quantas vezes parece que vós estais a dormir. Como é fácil a nós, homens, afastar-nos

dizendo para nós mesmos: Deus morreu. Fazei com que, na hora da escuridão, reconheçamos que em todo o caso vós estais lá. Não nos deixeis sozinhos

quando tendemos a desanimar. Ajudai-nos a não deixar-vos sozinho. Dai-nos uma fidelidade que resista no desânimo e um amor que vos acolha no momento mais extremo da vossa necessidade, como a vossa Mãe, que Vos

abraçou de novo no seu regaço. Ajudai-nos, ajudai os pobres e os ricos, os simples e os sábios, a ver através dos seus medos e preconceitos e a oferecer-vos a

nossa capacidade, o nosso coração, o nosso tempo, preparando assim o jardim no qual possa dar-se a ressurreição.


14ª Estação:

JESUS É SEPULTADO    

Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos, porque

pela Vossa santa cruz remistes o mundo.

 

Leitura: José pegou no corpo de Jesus, envolveu-o num lençol limpo e depositou-o no seu túmulo novo, que tinha mandado escavar na rocha. Depois, rolou uma grande

pedra para a porta do túmulo e retirou-se. Entretanto, estavam ali Maria de Magdala e a outra Maria, sentadas em frente do sepulcro (Mateus 27, 59-61).

 

Meditação: Jesus, desonrado e ultrajado, é deposto com todas as honras num túmulo novo. Nicodemos traz uma mistura de mirra e aloés de cem libras, destinada a

emanar um perfume precioso. Agora, na oferta do Filho, revela-se, como sucedera já na unção de Betânia, um excesso que nos recorda o amor generoso de

Deus, a “superabundância” do seu amor. Deus faz generosamente oferta de Si próprio. Se a medida de Deus é superabundante, também para nós nada deveria

ser demasiado para Deus. Foi o que o próprio Jesus nos ensinou no discurso da Montanha (Mt 5, 20). Mas é preciso lembrar também as palavras de São Paulo a propósito de Deus, que

“por nosso meio faz sentir em todos os lugares o odor do seu conhecimento. Somos, para Deus, o bom odor de Cristo” (2 Cor 2, 14-15). Na putrefação das ideologias, a nossa fé deveria ser de novo o perfume que reconduz às pegadas da vida. No momento da deposição, começa a realizar-se a

palavra de Jesus: “Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto” (Jo 12, 24). Jesus é o grão de trigo que morre. Do grão de trigo morto começa a grande multiplicação do pão que dura até ao fim do mundo: Ele é o pão de vida capaz de

saciar em medida superabundante a humanidade inteira e dar-lhe o alimento vital: o Verbo eterno de Deus, que Se fez carne e também pão, para nós, através

da cruz e da ressurreição. Sobre a sepultura de Jesus resplandece o mistério da Eucaristia.

 

Oração: Senhor Jesus Cristo, na sepultura fizestes vossa a morte do grão de trigo, tornastes-vos o grão de trigo morto que produz fruto ao longo de todos os tempos até

à eternidade. Do sepulcro brilha em cada tempo a promessa do grão de trigo, do qual provém o verdadeiro maná, o pão de vida em que vós mesmo vos ofereceis a nós. A

Palavra eterna, através da encarnação e da morte, tornou-Se a Palavra próxima: Colocais-vos nas nossas mãos e nos nossos corações para que a vossa Palavra

cresça em nós e produza fruto. Dais-vos a vós próprio através da morte do grão de trigo, para que nós tenhamos a coragem de perder a nossa vida para encontrá-la; para que também nós nos

fiemos da promessa do grão de trigo. Ajudai-nos a amar cada vez mais o vosso mistério eucarístico e a venerá-lo – a viver verdadeiramente de vós, Pão do Céu. Ajudai-nos a tornarmo-nos o vosso “odor”, a tornar palpáveis os vestígios da vossa vida neste mundo. Do mesmo modo que o grão de trigo se eleva da terra

como caule e espiga, assim também vós não podeis ficar no sepulcro: o sepulcro está vazio porque Ele – o Pai – não vos “abandonou na habitação dos mortos

nem permitiu que a vossa carne conhecesse a decomposição (Atos 2, 31; Sal 16, 10). Não, vós não experimentastes a corrupção. Ressuscitastes e deste espaço à carne transformada no coração de Deus. Fazei com que possamos alegrar-nos com

esta esperança e possamos levá-la jubilosamente pelo mundo; fazei que nos tornemos testemunhas da vossa ressurreição.

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